O título do novo disco de Flavio Venturini, "Canção sem fim" (lançado por seu selo Trilhos.Arte) define com propriedade a busca maior de um compositor dedicado a trilhar harmonias esmeradas, à espreita da melodia precisa. Há um ano, Flavio voltou a morar em Belo Horizonte, a cidade natal que trocara pelo Rio de Janeiro durante quase três décadas. Flavio Venturini está de volta às origens e isso, inevitavelmente, se reflete em sua música.
Ao longo do álbum, é possível perceber sonoridades do movimento progressivo do Terço, do barroco libertário do Clube de Esquina, do vôo BRock do 14 Bis. Esta influência pode ser sentida logo na faixa de abertura. “Amor pra sempre”, com música e letra e música do compositor, evidencia que a porção mais rock de Venturini não ficou perdida em Abbey Road, como propagava um de seus antigos sucessos. A volta às trilhas de MG reafirma este aspecto, no diálogo do violão e órgão Hammond de Flavio com o baixo de Dunga, a bateria de Sergio Melo e a guitarra de Torcuato Mariano, que também assina a produção do CD.
O mar de montanhas de Minas, elemento indispensável no caminho de Flavio surge no poema de Murilo Antunes para a balada “Retiro da Pedra”, composta assim que Flavio regressou a BH depois de longos verões no Rio. Murilo é ainda o autor da letra de “Belo Horizonte”, umas das mais delicadas canções já dedicadas à cidade, com arranjo de Ruriá Duprat para violinos, violas e violoncelo, junto ao piano acústico de Venturini. Outra parceria com Murilo é a balada “Retratos”, com arranjo para cordas e oboé, de Claudia Cimbleris, feita para o curta-metragem “Retrato pintado”, do cineasta cearense Joe Pimentel. Parceiro de fé desde os tempos do Clube da Esquina, Ronaldo Bastos condensa referências poéticas em “Casa no vento”: citações de Vinicius e Neruda a Roberto e Erasmo, sob os beats eletrônicos de Torcuato Mariano.
Em um disco onde o amor é personagem central de todas as músicas, o Rio de Janeiro não poderia ficar de fora. Flavio percorre os caminhos do samba para declarar sua paixão pela cidade em “Aqui no Rio”, letrada pelo ator mineiro Kimura. O arranjo do bandolinista brasiliense Hamilton de Holanda e a preciosa participação da cantora paraense Leila Pinheiro atestam que o Rio é mesmo a cidade dos brasileiros. “Flores de abril” exala essência latina, sobretudo pela presença do bandoneon do argentino Walter Castro, integrante da banda de Fito Paez, recrutado pelo conterrâneo Torcuato. A letra, de Flavio, cita mágicas localidades: Salvador e Arembepe, praia baiana celebrada pela geração que vislumbrou um mundo de paz e amor inspirado por músicas e flores.
Das 12 faixas, duas são regravações: “Fênix”, sucesso na voz do parceiro Jorge Vercilo – da trilha da minissérie da TV Globo A Casa das Sete Mulheres. A faixa-título, feita com Marcio Borges, foi lançada originalmente pelo 14 Bis, nos anos 80. Três delas são composições de amigos que Venturini admira e interpreta com propriedade: a balada “Neblina”, de Torcuato Mariano e Aloysio Reis; a canção soul “Melhores dias de um verão”, do jovem compositor carioca Julio Borges com letra de Cláudio Rabello; a toada “Quanto mais teus olhos calam”, de Thomas Roth, que Flavio há tempos acalentava o desejo de registrar.
“Canção sem fim” é o segundo CD de inéditas de Flavio pela Trilhos.Arte (via Distribuidora Independente), inaugurada com “Por que não tínhamos bicicleta”, de 2004. Como resume a faixa-título, Flavio Venturini só tem boa razão para cantar o amor sem fim. |